Esse é o sentimento que ninguém quer nomear. Aquele que aparece às duas da manhã quando você está acordado de novo, não por causa da sua própria insônia, mas porque alguém precisa de você. Aquele que passa como um relâmpago quando um amigo posta fotos de férias enquanto você está agendando mais uma rodada de consultas. Aquele que sussurra no fundo da sua mente: eu não me inscrevi para isso. Eu quero minha vida de volta.
Ressentimento. Aí está. A palavra que faz os cuidadores se sentirem monstros só de pensar nela.
Mas você não é um monstro. Você é um ser humano cuja vida foi consumida pela doença de outra pessoa, e não importa o quanto ame a pessoa que está cuidando, a perda da sua própria liberdade, dos seus próprios planos, da sua própria identidade é real. Ressentimento não significa que você não a ama. Significa que você está de luto pela própria vida enquanto simultaneamente tenta salvar a dela.
O câncer não acontece só com o paciente. Ele se muda para a casa inteira. Reorganiza agendas, drena contas bancárias, cancela planos e reescreve o futuro. Como cuidador, você pode ter desistido do emprego, dos hobbies, da vida social, do sono, da paz de espírito. Pode estar gerenciando medicamentos, planos de saúde, consultas médicas, tarefas domésticas e as emoções de todo mundo — tudo enquanto ninguém pergunta como você está. Claro que o ressentimento se acumula. Seria estranho se não acumulasse.
O perigo não está em sentir. O perigo está em se recusar a reconhecer. Quando o ressentimento não é dito, não desaparece — apodrece. Vaza como irritabilidade, distanciamento emocional, agressividade passiva ou um endurecimento lento do coração. Nomear o ressentimento não é crueldade. É o começo de lidar com ele honestamente.
Então o que fazer com esse sentimento depois de nomeá-lo?
Primeiro, pare de se julgar. Você não é uma pessoa ruim. Não é ingrato. Está carregando um peso que quebraria a maioria das pessoas, e o fato de ainda estar aqui, ainda cuidando, ainda aparecendo — diz tudo sobre seu caráter. Ressentimento não é defeito de caráter. É resposta ao estresse.
Segundo, encontre um espaço seguro para expressá-lo. Não para a pessoa que está cuidando — isso raramente é produtivo e frequentemente é prejudicial. Mas para um terapeuta, um grupo de apoio, um diário ou um amigo de confiança que não vai te julgar. Você precisa de um lugar onde possa dizer a verdade feia e honesta sem que digam que deveria ser grato ou que poderia ser pior.
Terceiro, retome algo para si. Mesmo uma coisa pequena. Uma hora por semana que seja inteiramente sua. Um limite que você estabelece e mantém. Uma tarefa que delega a outra pessoa. O ressentimento frequentemente grita mais alto quando perdemos completamente a nós mesmos no papel de cuidador. Tomar de volta até um pedaço mínimo da sua vida não é egoísmo — é sobrevivência.
Você pode amar alguém profundamente e ainda ressentir o que a doença fez com a sua vida. Essas duas coisas podem existir no mesmo coração. Sustentá-las ambas não é hipocrisia — é a realidade complicada e bagunçada de ser um cuidador. E você merece compaixão por isso, especialmente de si mesmo.