Você acha que está indo bem. Talvez até teve um bom dia. E aí passa por alguém usando o mesmo perfume que sua mãe usava, e o luto te atinge tão forte e tão rápido que não consegue respirar. Está no meio de uma loja, completamente desmoronando, e as pessoas ao redor não fazem ideia de que seu mundo inteiro acabou de desabar por causa de um cheiro.
Esses são gatilhos de luto — as emboscadas inesperadas, frequentemente bizarras, sobre as quais ninguém te avisa depois de perder alguém para o câncer. Não são os gatilhos que você esperaria, como visitar o cemitério ou olhar fotos antigas. Para esses você pode se preparar. Os que realmente te derrubam são os que vem do nada, disfarados de momentos comuns, e detonam sem aviso.
Um comercial de medicamento contra câncer na televisão. O som de um interfone de hospital em uma novela médica. Passar pela saída que costumava pegar para ir à casa deles. O peso específico de um telefone na mão que não toca mais. Uma comida que amavam, parada na prateleira do mercado. O jeito como a luz cai pela janela no fim da tarde, do mesmo jeito que costumava cair no quarto do hospital. Esses gatilhos não se anunciam. Simplesmente chegam e trazem uma onda de luto tão aguda que parece que a perda acabou de acontecer, mesmo meses ou anos depois.
Isso não é um retrocesso. Não é regressão. É simplesmente como o luto funciona em um corpo que amou alguém. Seu cérebro armazenou milhares de memórias sensoriais conectadas à pessoa que perdeu — visões, sons, cheiros, texturas, sabores — e quando encontra uma delas inesperadamente, a memória emocional ligada a ela dispara antes que sua mente consciente consiga acompanhar. Você não está desmoronando. Seu sistema nervoso está lembrando.
Alguns gatilhos estão especificamente ligados à experiência do câncer. O cheiro de álcool gel pode te transportar de volta à ala de oncologia. A visão de alguém careca pode fazer seu peito apertar. Salas de espera médicas — por qualquer motivo, até um checkup de rotina — podem disparar seu batimento cardíaco. Essas não são respostas irracionais. São seu corpo lembrando de um tempo de trauma sustentado.
Você não pode prevenir gatilhos, mas pode aprender a navegá-los. Quando uma onda bate, tente se ancorar no presente. Sinta seus pés no chão. Note cinco coisas que pode ver. Respire devagar. Lembre-se: estou seguro agora. Isso é uma memória, não uma emergência atual. E quando a onda passar — porque vai passar — seja gentil consigo. Pode precisar sentar no carro por alguns minutos. Pode precisar cancelar os planos da noite. Pode precisar ligar para alguém e dizer "fui pego por uma onda de luto e preciso conversar".
Com o tempo, alguns gatilhos podem suavizar. O perfume pode eventualmente fazer sorrir antes de fazer chorar. A estrada pode se tornar agridoce em vez de devastadora. Mas alguns gatilhos podem permanecer agudos por anos, e tudo bem também. São prova de que seu amor não desbotou. São o jeito do seu coração de dizer: essa pessoa importou para mim. Não esqueci. Nunca vou esquecer.
Você não está ficando louco. Você está de luto. E o luto não respeita calendários, agendas ou a expectativa de que deveria estar "melhor a essa altura".