A culpa após a perda é quase universal, e mesmo assim frequentemente pega as pessoas de surpresa. Você pode sentir culpa por coisas que disse ou não disse. Pelos momentos em que não esteve lá. Pelas vezes que perdeu a paciência durante a doença, ou pelas vezes que desejou que tudo simplesmente acabasse. Pode sentir culpa por estar vivo, por respirar, por existir em um mundo que a pessoa não habita mais. Essa culpa pode ser implacável, e pode convencê-lo de que você de alguma forma falhou com a pessoa que amou.
Mas eis algo importante para entender: a culpa após a perda raramente é sobre um erro real. Geralmente é o jeito da sua mente de tentar dar sentido a algo sem sentido. Se você encontrar algo que fez de errado, talvez possa explicar por que essa coisa terrível aconteceu. A culpa não é evidência de que você falhou — é evidência de que se importou profundamente, e de que seu amor agora não tem para onde ir.
Cuidadores frequentemente carregam um fardo de culpa especialmente pesado. Você pode revisitar cada decisão médica, pensando se uma escolha diferente teria mudado o resultado. Pode sentir culpa pelos momentos em que se afastou para cuidar de si — o banho que tomou, a hora de sono que se permitiu, a noite que passou longe do hospital. Mas cuidar de alguém com câncer é uma das coisas mais desgastantes que um ser humano pode fazer, e você não era sobre-humano. Era uma pessoa fazendo seu melhor absoluto em uma situação impossível.
Algumas pessoas sentem culpa pelo alívio que veio quando o sofrimento do ente querido acabou. Esse alívio não significa que você queria que ele morresse. Significa que não suportava mais vê-lo sofrer. Sentir alívio por alguém não estar mais em dor não é egoísmo — é profundamente compassivo. É possível sentir alívio e devastação ao mesmo tempo, e nenhum sentimento cancela o outro.
Se a culpa está te consumindo, tente isso: imagine que um amigo viesse até você carregando a mesma culpa, descrevendo as mesmas circunstâncias. O que você diria? Condenaria essa pessoa, ou a abraçaria e diria que fez tudo que podia? Ofereça a si mesmo a mesma graça que ofereceria a alguém que ama. Você também merece essa compaixão.
A culpa pode não desaparecer completamente, e tudo bem. Mas com o tempo, você pode aprender a reconhecê-la pelo que é — não um veredicto sobre seu caráter, mas um reflexo do seu amor. Você não falhou com a pessoa. Apareceu das formas que conseguiu, e isso foi suficiente. Sempre foi suficiente.