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Perda e Luto6 min de leitura

Quando o Luto Vem com Alívio: A Emoção que Ninguém Quer Admitir

Sentir alívio quando o sofrimento de um ente querido termina não faz de você uma pessoa ruim. Faz de você uma pessoa profundamente compassiva.

Existe uma emoção que quase toda pessoa que perdeu alguém para o câncer experimenta — e quase ninguém fala sobre. É alívio. O alívio silencioso, complicado, que revira o estômago, que lava sobre você quando o sofrimento finalmente termina. E logo atrás, quase instantaneamente, vem a vergonha. Porque como você pode sentir alívio por alguém que ama ter morrido? Que tipo de pessoa sente isso?

A resposta é: uma pessoa humana. Uma pessoa amorosa. Uma pessoa que assistiu alguém querido suportar dor inimaginável e não aguentava mais um minuto. Sentir alívio quando o sofrimento termina não é uma falha moral. É uma das respostas mais naturais e compassivas que um coração humano pode ter. E mesmo assim, porque vivemos em um mundo que trata o luto como uma performance — onde a resposta "certa" é devastação pura e nada mais — o alívio se torna um segredo que as pessoas carregam sozinhas, pesado de uma culpa que não merecem.

Deixe-me ser claro: alívio e amor não são opostos. Você pode estar despedaçado pela morte de alguém e simultaneamente aliviado por não estar mais em agonia. Pode sentir falta com cada célula do corpo e ainda assim sentir uma expiração de algo que se parece com paz, sabendo que não está mais conectado a máquinas, não está mais vomitando, não está mais chorando de dor, não está mais assustado. Esses sentimentos existem no mesmo coração ao mesmo tempo, e nenhum cancela o outro.

Para cuidadores, o alívio pode ser especialmente intenso — e a culpa especialmente esmagadora. Se você passou meses ou anos provendo cuidado constante, gerenciando medicamentos, dormindo com um olho aberto, sacrificando sua própria saúde e felicidade — seu corpo e mente estiveram em modo de sobrevivência. Quando o cuidado termina, seu sistema nervoso expira. Seu corpo relaxa. E então sua mente grita por você estar relaxando, porque a razão do cuidado ter terminado é que a pessoa que você cuidava se foi.

Algumas pessoas sentem alívio não só pelo fim do sofrimento, mas pelo fim do longo pavor. Os meses ou anos de espera pelo pior acontecer, de estremecer toda vez que o telefone tocava, de viver em estado permanente de antecipação — essa tensão constante é sua própria forma de tortura. Quando levanta, o alívio pode parecer enorme. E a culpa que segue pode ser igualmente grande.

Eis o que preciso que você ouça: você não é uma pessoa ruim. Não é frio, nem egoísta, nem deficiente em amor. O alívio que sente é um testemunho de o quanto amou a pessoa que perdeu. A amou tanto que assistir sofrer estava te destruindo. A amou tanto que queria que a dor dela acabasse, mesmo sabendo o que isso significava. Isso não é algo de que se envergonhar. É sagrado.

Se está carregando essa culpa, por favor converse com alguém. Um terapeuta, um conselheiro de luto, um grupo de apoio — qualquer pessoa que não vá te julgar por ser honesto sobre o que sente. Quando finalmente disser as palavras em voz alta, "senti alívio, e me sinto terrível por isso", quase certamente vai ouvir de volta: "eu também". Porque esse é o segredo compartilhado do luto do câncer. Quase todos sentem. Quase ninguém admite. E o silêncio ao redor causa tanto sofrimento desnecessário.

Você amou bem. Amou através do pior. E o alívio que sente não diminui esse amor nem em uma fração.

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Você não precisa carregar isso sozinho.

O luto não é algo para ser consertado ou apressado. Mas ter apoio — alguém que ouve, que entende — pode fazer toda a diferença.